A França teve neste sábado, 24 de outubro, mais um dia de atos de rua em todo o território, com duas contas muito distantes uma da outra e um fim de tarde marcado por confrontos em pelo menos nove cidades. O Ministério do Interior contabilizou cerca de 410 mil manifestantes em aproximadamente 298 protestos, dos quais 110 mil na capital. A central sindical CGT calculou cerca de 800 mil no país e 250 mil em Paris — praticamente o dobro, em ambos os casos, do número oficial. Nenhuma explicação para a diferença foi apresentada pelas duas partes.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, disse que as passeatas "transcorreram bem" ao longo do dia, mas que as forças de segurança enfrentaram depois um "nível de violência extremamente elevado", que atribuiu a grupos da "ultraesquerda". Segundo ele, "vários milhares de ativistas radicais" se concentraram na retaguarda do cortejo parisiense.
Quase mil detenções, e a conta ainda não fechou
Nuñez afirmou no fim do dia que a polícia havia detido "quase mil" pessoas em todo o país e que o número deveria subir "significativamente". A Procuradoria de Paris informou 64 detidos na capital, entre eles seis menores de idade, com 40 encaminhados à custódia policial; a polícia disse ter feito mais de 3 mil abordagens na cidade. Em Nice, 11 pessoas foram detidas depois de confrontos entre manifestantes e militantes de extrema direita.
O efetivo mobilizado chegou a 70 mil policiais e gendarmes, com helicópteros, veículos blindados e canhões de água — 20% mais que no sábado anterior, segundo o próprio ministério. Entre os objetos apreendidos, as autoridades listaram bolas de aço, chumbo de caça, fogos de artifício, estilingues, armas improvisadas, equipamentos de airsoft e uma katana.
Duas pessoas ficaram gravemente feridas, de acordo com a CBS News: uma em Clermont-Ferrand, sem detalhes divulgados, e um homem de 20 anos em Toulouse, que teria perdido dedos da mão.
Paris desviada, museus fechados
O trajeto tradicional entre as praças da Bastilha e da Nação foi proibido, e o ato parisiense acabou deslocado para a borda sudeste da cidade. A polícia usou gás lacrimogêneo e canhão de água no encerramento da marcha, e as autoridades estimaram em 500 o número de pessoas envolvidas nos confrontos na capital.
A cidade passou o dia em regime de exceção prática: 24 estações de metrô foram fechadas a pedido da polícia, o Louvre e o Musée d'Orsay não abriram, a feira Art Basel Paris cancelou a programação do fim de semana e boa parte do comércio do centro amanheceu com tapumes nas vitrines. Nuñez disse que houve saques, em escala muito menor que na semana anterior, quando cerca de 3 mil estabelecimentos foram danificados ou saqueados.
Fora da capital, os atos foram proibidos em Montpellier, Rouen e Nice, e no centro de Lyon, onde a polícia lançou gás lacrimogêneo para dispersar cerca de 150 pessoas. Em Marselha, a passeata sindical foi autorizada sob condições estritas e reuniu cerca de 17 mil pessoas pela conta policial. Em Orléans, uma marcha contra o congresso do Rassemblement National levou 11 mil pessoas segundo a polícia e 26 mil segundo os organizadores; no evento do partido, Jordan Bardella foi reconduzido à presidência com quase 99% dos votos.
De bloqueio de escola a crise política
O movimento começou em meados de setembro com estudantes secundaristas bloqueando escolas por causa de prédios deteriorados, falta de professores e do sistema de admissão universitária, o Parcoursup. Desde então incorporou pauta de custo de vida e desigualdade, atraiu sindicatos e antigos integrantes dos coletes amarelos e virou um protesto amplo contra o governo de Emmanuel Macron. No sábado anterior, 17 de outubro, mais de meio milhão de pessoas foram às ruas e mais de 2 mil acabaram sob custódia.
Macron recebeu representantes estudantis na sexta-feira, 23, na primeira reunião desde o início da mobilização, e prometeu ampliar o quadro de professores e reformular o Parcoursup. Os estudantes saíram do encontro dizendo que ele não reduziu a tensão e convocaram novos atos até que haja medidas concretas. Uma nova jornada de protestos já está marcada para o próximo sábado.
O calendário político pesa sobre o impasse: Macron não pode disputar um terceiro mandato consecutivo e deixa o Palácio do Eliseu em 2027, e as pesquisas apontam Marine Le Pen como a favorita à sucessão. É esse vácuo que ajuda a explicar por que um protesto nascido em pátio de escola segue nas ruas mais de um mês depois, sem um interlocutor capaz de encerrá-lo.
No mesmo dia houve confrontos em oito cidades italianas, com nove detenções e 371 conduções breves — 110 delas de menores de idade —, além de tumulto em Tirana, na Albânia, de acordo com a CBS News. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, anunciou o envio de 500 militares a Milão.
Com informações de Al Jazeera e CBS News.




