O Ministério das Relações Exteriores divulgou na noite de terça-feira (20) uma nota de repúdio a novos ataques do presidente da Argentina, Javier Milei, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao sistema eletrônico de votação e ao Judiciário brasileiro. Para o Itamaraty, as declarações constituem "nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro".
A manifestação chega a quatro dias do segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo (25), em que Lula (PT) tenta a reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL).
O que diz a nota
O texto afirma que Milei reitera "mentiras difundidas por aqueles que perderam as eleições" e trata as declarações como incompatíveis com a conduta esperada de um chefe de Estado de país vizinho e amigo. O ministério classifica a fala do argentino como "desequilibrada" e associa as alegações à contestação do resultado de 2022, sem nomear Jair Bolsonaro.
Sobre a urna, a nota é direta: o sistema eletrônico de votação brasileiro "é comprovadamente seguro" e nunca registrou irregularidade — avaliação que, segundo o Itamaraty, foi endossada por observadores internacionais que acompanharam o primeiro turno deste ano.
O trecho final devolve a palavra ao eleitor. "A decisão sobre o futuro do Brasil cabe exclusivamente ao povo brasileiro", diz o documento, que afirma que o país vota no domingo sem interferência externa.
O que Milei publicou
Nas redes sociais, Milei compartilhou um trecho da entrevista de Lula ao SBT, na noite anterior, e escreveu esperar que o "último truque de campanha suja" não incluísse roubar a eleição. Também repostou um recorte do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado no domingo (18), ao chamar o presidente brasileiro de "autoritário adorado pelos progressistas locais". Milei é aliado declarado da família Bolsonaro.
Uma relação já rebaixada
O atrito não é novo, e a nota cai sobre uma relação diplomática que já havia sido reduzida. Desde agosto o Brasil não tem embaixador em Buenos Aires, e o embaixador argentino foi orientado a deixar Brasília: as duas capitais são representadas hoje por encarregados de negócios.
Em 26 de julho, o embaixador do Brasil na Argentina, Bitelli, foi chamado de volta a Brasília depois de Milei chamar Lula de "presidiário" na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. Na mesma ocasião, o argentino atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
O desgaste político corre em paralelo a uma relação econômica difícil de desfazer: o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, e as duas economias são integradas sobretudo nas cadeias automotiva e industrial — o que explica por que o rebaixamento diplomático, até aqui, não veio acompanhado de medidas comerciais.
Não havia, até a publicação desta reportagem, resposta oficial do governo argentino à nota brasileira.
Com informações da Agência Brasil e do Estado de Minas.




