A líder opositora venezuelana María Corina Machado voltou à Venezuela no domingo, 25 de outubro, depois de cerca de dez meses fora do país, e reapareceu em público em uma igreja de Barquisimeto, a cerca de 400 quilômetros a oeste de Caracas. "Estou aqui. Com vocês", escreveu naquele dia em sua conta no X. O dirigente opositor Edmundo González anunciou na mesma rede que Machado já estava em solo venezuelano.
De Barquisimeto, ela liderou uma carreata por estrada até a capital. Foi vista em Guacara, no estado de Carabobo, cantando o hino nacional com simpatizantes, e milhares de pessoas a acompanharam em carros e motocicletas ao longo do trajeto. "A Venezuela está dando uma lição ao mundo todo", disse a seus seguidores, segundo o jornal equatoriano El Universo.
Nove tentativas, segundo a imprensa espanhola
Seu partido, o Vente Venezuela, afirma que Machado havia tentado voltar pelo menos sete vezes sem sucesso, com uma viagem de barco cancelada e uma autorização de pouso negada para um voo a Curaçao. O jornal espanhol ABC, citado pela Bloomberg Línea, informou que desta vez ela entrou pela Colômbia, em sua segunda tentativa por essa rota e na nona desde junho.
Machado deixou a Venezuela no fim de 2025, depois de meses escondida no país, e reapareceu na Noruega em dezembro daquele ano para receber o Prêmio Nobel da Paz de 2025.
Disposição a sentar-se com a presidente interina
A porta-voz do Vente Venezuela, Claudia Macero, disse na segunda-feira à Unión Radio que Machado está disposta a "sentar-se não só com Delcy, mas com quem for necessário", em referência à presidente interina Delcy Rodríguez. Enquanto tentava voltar, do Panamá, Machado já havia afirmado que estava aberta a "falar com quem for preciso falar".
O governo interino não havia se manifestado sobre o retorno até o fechamento desta edição. Jorge Arreaza, da delegação oficial na mesa de diálogo, sustentou que as conversas buscam criar condições para a atividade política dentro da Constituição, sem oferecer garantias específicas para Machado.
Delcy Rodríguez governa de forma interina desde janeiro, quando uma operação militar dos Estados Unidos capturou Nicolás Maduro em Caracas. O Tribunal Supremo de Justicia (corte suprema venezuelana) autorizou esse interinato por até 90 dias, e a Asamblea Nacional (parlamento venezuelano) nunca votou uma prorrogação.
O papel de Washington
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, atribuiu o retorno às conversas de reconciliação apoiadas por Washington, que segundo ele permitiram a libertação de centenas de presos políticos e "representam a melhor oportunidade" que a Venezuela teve em 30 anos. Rubio acrescentou que Machado tinha "todo o direito de entrar em seu país". Autoridades americanas negam ter obstruído o retorno, embora reconheçam que em algum momento a aconselharam a não tentar, por razões de segurança.
O presidente Donald Trump disse que não conhecia os detalhes do retorno, descreveu Machado como "uma mulher muito agradável" e lembrou que ela lhe entregou seu Prêmio Nobel. Segundo o ABC, o governo americano esteve dividido até o último momento, e parlamentares da Flórida alertaram a Casa Branca sobre o custo político de aparentar bloquear o retorno, a poucos dias das eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos.
Nos últimos meses, Washington e Caracas restabeleceram relações diplomáticas, rompidas desde 2019, e em agosto anunciaram um acordo petrolífero que dá aos Estados Unidos acesso a cerca de um quarto das reservas de petróleo venezuelanas. Na semana passada, os Estados Unidos suspenderam sanções financeiras a Jorge Rodríguez, presidente da Asamblea Nacional e irmão da presidente interina.
Sem data para as eleições
Não há data marcada para uma eleição presidencial. Machado e seus aliados pedem um calendário eleitoral; autoridades americanas têm dito que a estabilidade econômica deve vir primeiro, e Delcy Rodríguez declarou em setembro, na ONU, que os venezuelanos decidirão quando votar.
Dentro da oposição, a Plataforma Unitaria Democrática (coalizão opositora venezuelana) celebrou o retorno e afirmou que ele deveria dar novo impulso à luta pela democracia. Henry Alviarez, do Vente Venezuela, pediu um calendário eleitoral firme e criticou a mesa de negociação, que chamou de um "banquinho" que não escuta a população.
O retorno resolve o ponto mais visível do pulso dos últimos meses — a presença física de Machado no país — e deixa abertos os três que importam para o que vem: a data do voto, as garantias para a atividade política da oposição e as condições de uma eventual transição.
Com informações de Telemundo, Bloomberg Línea, El Universo, Cadena 3 e EFE.




