A Espanha ficou nesta terça-feira (3) sem o ministro responsável pela malha ferroviária do país. Óscar Puente anunciou a renúncia ao Ministério dos Transportes e Mobilidade Sustentável no último turno de fala de sua comparecência à Deputação Permanente do Congresso dos Deputados — a sessão convocada justamente para que ele prestasse contas do choque de trens de Urda, na província de Toledo, que matou 69 pessoas em 28 de outubro.
"Um ministro dos Transportes de um país como a Espanha não pode continuar no cargo com dois acidentes desta gravidade em menos de um ano", disse Puente aos deputados. Ele descreveu a decisão como questão de "dignidade política, de coerência e de empatia com as vítimas".
Horas antes, fontes do governo diziam que a renúncia estava descartada e que o ministro seguiria como cabeça de lista do PSOE por Valladolid na eleição geral de 29 de novembro. Ao sair, Puente abandonou também a candidatura.
Dois acidentes, 115 mortes
O número que encerrou a carreira ministerial de Puente é a soma de duas tragédias em dez meses na malha de alta velocidade espanhola:
- Adamuz, na província de Córdoba, em 18 de janeiro de 2026: 46 mortos. Depois do acidente, o governo negociou um pacote de medidas com os principais sindicatos ferroviários, entre eles o Semaf, a CCOO e a UGT.
- Urda, na província de Toledo, em 28 de outubro de 2026: 69 mortos e dezenas de feridos.
Todas as 69 vítimas de Urda já foram identificadas pelo Instituto de Medicina Legal de Toledo e Ciudad Real: 54 espanhóis e 15 estrangeiros, 40 homens e 29 mulheres, todos adultos. As famílias e os consulados dos países envolvidos foram notificados.
As causas técnicas dos dois choques continuam sob investigação. A responsabilidade política que Puente assumiu ao renunciar não implica responsabilidade criminal nem antecipa a conclusão dos peritos.
O que o ministro disse antes de sair
Durante a comparecência, Puente defendeu o sistema ferroviário espanhol, mas reconheceu a necessidade urgente de melhorá-lo e de rever seus protocolos de operação. Três pontos de sua fala:
- Pontualidade x segurança. Ele negou qualquer orientação para privilegiar o horário: "jamais me ocorreria dizer a alguém que sacrifique a segurança em nome da pontualidade". Segundo o ministro, a Adif, gestora da infraestrutura, nega categoricamente ter emitido instruções desse tipo. Depois de Adamuz, acrescentou, a pontualidade da malha caiu de 75% para 50%.
- Comparação europeia. Citando um relatório da União Europeia, Puente afirmou que a Espanha é o quinto país do continente em falhas dos sistemas automáticos de frenagem — atrás da República Tcheca, da Polônia, da Suíça e da Itália.
- Madri–Sevilha. A linha onde ocorreu o acidente de Urda não está "nem abandonada nem esquecida", disse, e recebe 780 milhões de euros em obras de renovação.
As medidas aprovadas no mesmo dia
No mesmo 3 de novembro, o Conselho de Ministros aprovou um pacote que Puente apresentou ao Congresso antes de renunciar: redução temporária das frequências na linha Madri–Sevilha, uma segunda validação obrigatória para certas decisões tomadas pelos centros de controle, reforço de pessoal, novas ferramentas tecnológicas, ajuda às vítimas e um mecanismo para limitar preços de passagens em situações de emergência.
Para a linha Madri–Barcelona, que também passará por obras de renovação, o governo se inclina a manter o serviço funcionando em vez de suspendê-lo — hipótese que chegou a ser estudada, com interrupção de cerca de 12 meses. A decisão final sai quando as obras forem licitadas, no ano que vem.
A exigência de uma segunda validação para decisões dos centros de controle é o item mais revelador do pacote: trata o erro humano isolado como ponto único de falha a eliminar, e não como causa a apurar. Foi essa a crítica que a IU, pela voz de Toni Valero, levou ao plenário — um sistema que só é seguro quando ninguém erra não é um sistema seguro.
A reação no plenário
O pedido de renúncia já estava na mesa de quase todas as bancadas. O PP, pela deputada Ester Muñoz, acusou o ministro de não assumir responsabilidade: "Sabe explicar bem por que as pessoas morrem, mas não evitá-lo." O PNV, com Mikel Legarda, foi direto ao ponto. O Vox, o Podemos e a Frente Amplio de Ada Colau também cobraram a saída; o Sumar pediu que ela ocorresse em momento escolhido pelo próprio ministro. O EH Bildu foi a única força a não cobrar a renúncia, advertindo contra atribuir culpa antes do fim das investigações.
O PSOE defendeu Puente até o fim — Patxi López afirmou que o ministro estava "onde tinha de estar" no dia do acidente. O Junts, com Míriam Nogueras, deslocou a conta para trás: anos de subinvestimento e de problemas estruturais de manutenção, sob governos do PP e do PSOE.
Fora do Congresso, o comitê de obras da Adif aprovou uma greve para 17 de novembro, ainda não formalmente convocada. O líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, chamou a paralisação de "um grave erro" e pediu que os sindicatos a cancelassem, ao mesmo tempo que afirmou que a tragédia de Urda "não pode ser despachada com explicações rotineiras".
O debate chega a Bruxelas
O comissário europeu dos Transportes, Apostolos Tzitzikostas, defendeu a instalação do ERTMS — o sistema europeu de gestão de tráfego ferroviário — em todas as linhas do bloco. A União Europeia estuda também reforçar os poderes da Agência Ferroviária da União Europeia.
Nenhum nome foi anunciado para substituir Puente no ministério.
Com informações da Euronews, do Diario de Pontevedra, do Orain e de El Cronista.




