Em Banabuiú, município do Sertão Central do Ceará a cerca de 220 quilômetros de Fortaleza, comprar um garrafão de água mineral passou a exigir escolta policial. Desde sexta-feira (30), policiais militares acompanham funcionários da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) que buscam a água em fornecedores da região, levam os garrafões à cidade e os vendem sob proteção — porque o comércio local havia parado de vender.
A paralisação não foi por falta de produto. Foi por ameaça.
O "edital"
Em 19 de outubro, segundo o jornal O Povo, chefes do Comando Vermelho (CV) fizeram circular um comunicado que ficou conhecido na cidade como "edital Banabuiú". O texto condicionava a venda de água à autorização do grupo e ao pagamento de uma taxa semanal — um "pedágio" de R$ 200 a R$ 750, conforme o estabelecimento. Quem não pagasse teria a loja fechada e poderia sofrer outras punições.
Os comerciantes fecharam. A água mineral desapareceu das prateleiras de uma cidade de aproximadamente 17 mil habitantes, conforme a Agência Brasil. Em 21 de outubro, uma escola municipal suspendeu as aulas por não ter água para os alunos. No fim de semana passado, moradores formaram filas na praça da Igreja Matriz para conseguir garrafões; nas imagens que circularam em redes sociais, há gente carregando até cinco de uma vez.
A resposta do estado
A logística montada desde sexta é a seguinte: Cagece e Polícia Militar do Ceará recolhem os garrafões com fornecedores de fora do município e fazem a venda em Banabuiú com acompanhamento policial. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) afirmou que o arranjo garante a comercialização com segurança para a população.
O policiamento também foi reforçado, com equipes do Batalhão de Eventos e Policiamento Itinerante (BEPI), do CPRaio e do Copac, apoio do destacamento local da 4ª Companhia do 9º Batalhão da PMCE e aeronave da Ciopaer.
Em 28 de outubro, o secretário de Segurança Pública e Defesa Social, Roberto Sá, disse em entrevista que estava em contato com o prefeito Marcílio Coelho (PSB) e com os comerciantes da cidade. A prefeitura não respondeu à Agência Brasil.
Três presos, e o mandante no Rio
No dia 22, três suspeitos foram presos em flagrante: Cícero Kevin Gomes Farias, de 26 anos; Francisco das Chagas de Lima da Silva, de 34, conhecido como "Chico Motos"; e Carlos Fernando da Silva Andrade, de 25. Com eles foram apreendidos um revólver calibre 38, munições, dinheiro, seis celulares e um notebook.
A Polícia Civil identificou o apontado mandante do esquema, que estaria foragido no Rio de Janeiro, e trabalha com a Polícia Civil fluminense para prendê-lo. A identidade dele não foi divulgada.
Segundo Roberto Sá, a investigação continua e outros suspeitos já foram identificados, mas novas buscas e prisões dependem de autorização do Judiciário e do Ministério Público.
O que o caso mostra
O episódio tem uma particularidade que o distingue da extorsão comum de comércio. O objeto da taxa aqui não foi o lucro de um ponto de venda qualquer: foi o acesso de uma cidade inteira à água potável — e o efeito prático de a cobrança não ser paga apareceu em uma escola sem água e numa fila na praça da matriz.
É também um indicador de alcance territorial. O Comando Vermelho nasceu e se consolidou no Rio de Janeiro; o "edital" que fechou as distribuidoras partiu de um município do sertão cearense, com o apontado mandante operando de outro estado.
Com informações de Agência Brasil e do jornal O Povo.




