O presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, assinou nesta quarta-feira (4) o decreto que demitiu o chefe de gabinete da Presidência, o general Listyo Sigit Prabowo — um dia depois de a Polícia Nacional anunciar que ele passou à condição de suspeito em um caso de escutas telefônicas ilegais que teria atingido o próprio presidente.
O anúncio foi feito pelo ministro-secretário de Estado, Prasetyo Hadi, no Palácio Presidencial, em Jacarta. "O presidente tomou uma decisão e assinou um decreto presidencial", disse. Prasetyo explicou a razão sem rodeios: "um dos suspeitos no caso ocupa o posto de chefe de gabinete da Presidência". Para o lugar, em caráter temporário, foi designado o tenente-general Ariyo Windutomo, que chefia a Secretaria Presidencial.
O que a polícia apura
A corporação sustenta que as interceptações ocorreram entre 2025 e 2026, no período em que Listyo comandava a Polícia Nacional — cargo que ocupou por cinco anos antes de assumir o gabinete presidencial, no mês passado. Segundo os investigadores, os grampos foram ordenados sem o procedimento legal exigido.
Os alvos relatados vão muito além do presidente: ministros, políticos, jornalistas, lideranças da sociedade civil e executivos de empresas. No fim de outubro, ainda de acordo com a polícia, os suspeitos mandaram apagar arquivos com as comunicações interceptadas para esconder as provas.
O chefe da Diretoria de Investigação Criminal, Asep Safrudin, afirmou que a operação foi conduzida "sem qualquer base legal ou sem qualquer processo de investigação ou inquérito conforme as leis aplicáveis". O ministro sênior para Assuntos Jurídicos, Yusril Ihza Mahendra, disse que o motivo ainda não foi determinado.
Além de Listyo, foram apontados como suspeitos Ahrie Sonta Nasution, que chefia a divisão jurídica da Polícia Nacional, e Eko Hadi Santoso. Os três foram detidos no domingo, e a polícia só anunciou as detenções na noite de terça-feira. Os crimes em apuração incluem interceptação ilegal de comunicações, acesso não autorizado a sistemas eletrônicos e supressão de dados — alguns deles com pena de até dez anos de prisão. Nenhum dos três se manifestou publicamente.
Palácio fala em traição
O porta-voz presidencial Prasetyo Hadi atribuiu os atos a "certos indivíduos desonestos" e foi além na qualificação: o que foi feito "pode já se enquadrar em uma categoria que pode ser considerada um ato que tende à traição". Ele acrescentou que a conduta tende também a pôr em risco os interesses do Estado e "a segurança do chefe de Estado".
Vale registrar o peso institucional da frase: traição, no vocabulário jurídico indonésio, é acusação de outra ordem que a de abuso de autoridade — e ela parte do palácio, não dos investigadores, que por ora falam apenas dos crimes previstos na legislação de comunicações e dados.
20.980 militares em Jacarta
Em paralelo, as Forças Armadas colocaram mais de 20 mil militares na capital. O assistente de operações da Marinha, vice-almirante Yayan Sofiyan, deu o número exato: 20.980. A primeira fase começou na segunda-feira, com 2.100 integrantes de unidades já sediadas em Jacarta; na quarta-feira chegariam tropas de unidades de fuzileiros e da Marinha, de centros de treinamento e de bases navais em Java e em Lampung. Outros 13.140 estão de prontidão.
As autoridades não confirmaram ligação entre o deslocamento e a investigação, e Sofiyan não explicou a finalidade da operação. O porta-voz das Forças Armadas, major-general Muhammad Nas, tratou o movimento como rotina: "deslocamentos de tropas são uma ocorrência normal", afirmou, descrevendo o procedimento como padrão de segurança nacional.
Com informações da Antara, da Al Jazeera e da Associated Press.




