O presidente russo, Vladimir Putin, assinou na sexta-feira (18) um decreto que transfere para administração temporária do Estado os ativos na Rússia da suíça Nestlé e de três empresas francesas: a rede de supermercados Auchan, a varejista de material de construção Leroy Merlin — que opera no país como Lemana Pro — e o grupo de logística FM Logistic.
A medida se apoia no marco criado em 2023, que permite colocar sob controle temporário bens de companhias sediadas em países classificados pelo Kremlin como "hostis". Na prática, a gestão passa a um terceiro indicado pelo governo, sem que a propriedade formal seja transferida — uma figura que, nos casos anteriores, antecedeu a venda dos ativos a compradores locais.
Quem passa a administrar
O decreto entrega as operações a uma empresa chamada LEV Management (também citada como L.E.V. Management), criada no fim de 2025, sem histórico comercial conhecido e dirigida por um general do Ministério do Interior russo.
O tamanho do que foi tomado
- Nestlé — seis fábricas no país e cerca de 7 mil funcionários. Em 2021, as vendas russas somaram aproximadamente 2 bilhões de francos suíços (cerca de US$ 2,4 bilhões). O analista Jean-Philippe Bertschy calcula que a Rússia responde hoje por pouco mais de 1% das vendas globais do grupo, ante cerca de 2% antes da invasão.
- Auchan — 241 lojas, entre elas 62 hipermercados, mais a operação on-line, e mais de 33 mil empregados. A rede é uma das últimas grandes varejistas ocidentais que seguiram operando na Rússia após 2022.
- Leroy Merlin (Lemana Pro) e FM Logistic — ambas francesas, com presença relevante no varejo de materiais de construção e na distribuição.
A justificativa do Kremlin
O porta-voz Dmitri Peskov citou "ações hostis" de países "não amigáveis", afirmando que esses Estados estão "envolvidos da maneira mais ativa em ações militares contra o nosso país". Moscou trata os fornecedores de armas a Kiev, entre eles a França, como partes no conflito. A Suíça, que não envia armamento, entrou na lista por aderir às sanções ocidentais.
O que dizem as empresas
A Nestlé afirmou estar "comprometida em tomar todas as medidas necessárias para proteger seus direitos" e disse que avaliará "a situação e suas opções". A Auchan pediu "esclarecimentos" às autoridades russas e informou que fará "comentários mais detalhados" quando tiver as informações. Não houve manifestação pública dos governos francês e suíço até a publicação desta reportagem.
Não é a primeira vez
O precedente mais citado é o de 2023, quando a francesa Danone e a dinamarquesa Carlsberg tiveram as operações russas colocadas sob administração temporária — e, depois, vendidas a grupos próximos ao poder. O padrão dá a medida do risco para quem permaneceu: o decreto não confisca formalmente, mas retira da matriz o controle sobre o que acontece com a empresa a partir dali.
Com informações de France 24, The Moscow Times, Channels Television, CNN e Euronews.


