A República Democrática do Congo tem 28,8 milhões de pessoas em insegurança alimentar aguda até dezembro — 23% da população analisada —, segundo a nova análise da Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), divulgada em 30 de outubro. Para o período de janeiro a junho de 2027, a projeção sobe a 30,3 milhões, quase uma em cada quatro pessoas analisadas.
Mais de 3,6 milhões de pessoas, cerca de 3% do total, estão na Fase 4 da escala, a de emergência — o degrau imediatamente anterior à fome declarada. Na projeção para o primeiro semestre de 2027, esse grupo chega a 4,2 milhões.
O leste concentra a crise
Kivu do Norte, Kivu do Sul e Ituri são as províncias mais atingidas e reúnem 10,4 milhões de pessoas na Fase 3 ou acima. Quatro territórios — Djugu, Fizi, Shabunda e Walungu — estão classificados na Fase 4. "As condições se deterioraram de forma mais acentuada nas províncias do nordeste e do leste", afirma o IPC.
Deslocados, retornados, refugiados e famílias pobres são os grupos mais afetados.
Conflito, Ebola e El Niño
A análise aponta quatro motores: conflito e deslocamento, o avanço do Ebola, enchentes associadas ao El Niño e a alta de preços de alimentos, combustível e insumos agrícolas. A isso se soma a redução da ajuda humanitária. "Conflito e violência continuam a provocar deslocamento, a desorganizar meios de vida e a restringir o acesso a comida e a mercados", diz o texto.
O alerta saiu em meio ao maior surto de Ebola já registrado no país, que passou de 10 mil casos. Começou em Ituri e se espalhou para oito províncias.
"Necessidades que explodem, orçamentos que encolhem"
Clemeny Nkubizi, diretor da CARE na República Democrática do Congo, afirma que famílias em Ituri e no Kivu do Sul estão pulando refeições e escolhendo entre comida, escola e remédio, e que a organização não consegue atender necessidades que explodem com orçamentos que encolhem.
Safi, agricultora do Kivu do Sul, resumiu à CARE: "Ficou difícil pôr comida na mesa." Ela pede sementes, ferramentas e técnicas agrícolas mais resistentes ao clima. Mwajuma, também agricultora da província e deslocada mais de uma vez por conflito e enchentes, disse à organização que "às vezes vamos dormir com fome".
O que a escala mede
O IPC é uma plataforma apoiada pela ONU que classifica a insegurança alimentar em cinco fases: a 3 é a de crise, a 4 a de emergência e a 5, a de fome declarada. Nenhum território congolês aparece na Fase 5 nesta análise — os 4,2 milhões projetados em emergência são o grupo mais próximo desse limite.
Com informações de ONU News e CARE, com base na análise do IPC.




