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Um ano depois da queda, El Fasher tem entre 40 mil e 60 mil pessoas de uma população que passava de 300 mil

O Escritório de Direitos Humanos da ONU estima mais de 6.000 mortos em três dias na tomada da cidade pelas Forças de Apoio Rápido, em 26 de outubro de 2025

Por Redação RecortNews
Mulheres deslocadas vendem carvão em um mercado de El Fasher, capital do Darfur do Norte, em 2015.
Mulheres deslocadas vendem carvão em um mercado de El Fasher, capital do Darfur do Norte, em 2015.Foto: RomanDeckert/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Um ano depois de as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) tomarem El Fasher, capital do estado sudanês do Darfur do Norte, a cidade segue praticamente vazia. A organização humanitária Solidarités International estima que entre 40 mil e 60 mil pessoas voltaram a morar ali ou circulam pela cidade com regularidade — de uma população que, antes da guerra, passava de 300 mil.

El Fasher caiu em 26 de outubro de 2025, ao fim de um cerco de cerca de 500 dias. Era o último grande centro urbano do Darfur fora do controle das RSF, que lutam contra o Exército do Sudão desde abril de 2023. O Escritório de Direitos Humanos da ONU estima que mais de 6.000 pessoas foram mortas em três dias durante a ofensiva final; pesquisadores que trabalham com imagens de satélite suspeitam que o número real esteja na casa das dezenas de milhares.

Milhares de desaparecidos

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) registrou a fuga de quase 100 mil pessoas. Milhares continuam desaparecidas — mortas na tentativa de sair ou capturadas pelas RSF.

A missão de apuração da ONU sobre o Sudão concluiu que a campanha das RSF em El Fasher tinha "marcas de genocídio". A Human Rights Watch, em balanço publicado em 26 de outubro, registra que nas últimas semanas do cerco os moradores comiam ração animal até ela acabar, que a milícia cavou uma trincheira em volta da cidade e que usou drones contra soldados, grupos armados aliados do governo e civis encurralados numa área pequena.

A entidade também afirma que contratados militares privados colombianos, treinados em bases militares dos Emirados Árabes Unidos, atuaram ao lado das RSF operando drones e artilharia, e que o apoio militar dos Emirados à milícia viola o embargo de armas da ONU sobre o Darfur. O comandante das RSF, Mohamed Hamdan Dagalo, o "Hemedti", segue sem novas sanções internacionais.

"Diferente de tsunamis, os horrores de El Fasher eram evitáveis", diz o texto da Human Rights Watch.

Casas ocupadas e ruas desertas

Grupos de ajuda humanitária entraram em El Fasher em janeiro de 2026, pela primeira vez desde a tomada, e descreveram uma cidade fantasma, com poucos civis. Laura Mills, pesquisadora da Anistia Internacional, afirma que só uma fração da população voltou, por medo: restam bolsões de casas de pé, com ruas desertas entre eles.

Renaud Douci, coordenador de campo da Solidarités International, atribui a hesitação também ao preço — há poucas barracas no mercado e os valores são altos. Moradores relatam que as novas autoridades estão instalando pessoas de fora nas casas vazias. A Tasis, coalizão liderada pelas RSF que governa a partir de Nyala, no Darfur do Sul, pediu publicamente que os deslocados voltem.

As prisões

Organizações de direitos humanos estimam que entre 13 mil e 19,5 mil pessoas estiveram detidas este ano na prisão de Dagris, perto de Nyala, cuja capacidade oficial é de 4.500. Mohamed Faisal, da Rede de Médicos do Sudão, afirma que os presos não têm contato com as famílias e que as mortes aumentaram, com cólera e dengue entre as causas. A rede calcula que cerca de 73 profissionais de saúde estejam presos em Dagris e em Kober, outra cadeia do Darfur do Sul.

O Darfur inteiro, e agora o Cordofão

Com El Fasher, as RSF passaram a controlar praticamente todo o Darfur. O combate se deslocou para a região do Cordofão, onde a ONU já advertiu que a história de El Fasher pode se repetir — e é esse alerta, mais do que o aniversário, que mantém o caso aberto.

Com informações de Human Rights Watch, allAfrica, Escritório de Direitos Humanos da ONU, Organização Internacional para as Migrações, Anistia Internacional, Solidarités International e Rede de Médicos do Sudão.