A disputa tarifária que corre entre Washington e Brasília desde julho entra em uma nova rodada, e pela primeira vez em meses o próximo lance é americano. O governo brasileiro diz que aguarda uma proposta escrita dos Estados Unidos em novembro e repete que não fará a primeira oferta, com o argumento de que as tarifas partiram do lado americano.
O calendário mudou no fim de semana. Luiz Inácio Lula da Silva venceu o quarto mandato no segundo turno de 25 de outubro e, nesta segunda-feira, fontes do governo brasileiro disseram à Folha de S.Paulo que Washington sinalizou disposição de reabrir as conversas sobre as tarifas, que chegam a 37,5% em parte dos produtos. A Casa Branca não comentou publicamente, e nenhuma redução foi anunciada.
Como se chegou aos 37,5%
A alíquota é a soma de duas medidas tomadas com nove dias de diferença. Em 15 de julho, o Office of the United States Trade Representative (USTR, a representação comercial americana) anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros com base na Section 301, dispositivo da lei comercial americana, depois de uma investigação que durou um ano; um aviso no Federal Register, o diário oficial americano, datado de 20 de julho aplicou a medida às mercadorias desembaraçadas a partir de 22 de julho. Em 24 de julho, uma segunda ação na mesma Section 301, ligada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias de fornecimento, acrescentou 12,5%. Onde as duas incidem, o total é de 37,5%.
As medidas têm alcances e listas de exceção diferentes. Café, carne bovina, suco de laranja, peças de aeronaves e produtos de petróleo e gás ficaram de fora. Juntas, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), elas alcançam 3.985 produtos, US$ 10,8 bilhões. O Brasil levou a disputa à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 27 de julho.
O que as tarifas fizeram com o comércio
O estrago é concentrado, e não geral — foi o que as listas de exceção produziram. As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 6,5%, para US$ 27,5 bilhões, de janeiro a setembro, segundo a Amcham. Já as exportações taxadas nas alíquotas de 25% e 37,5% caíram 25,4% no mesmo período, cerca de quatro vezes a queda do total.
Essa diferença é o argumento mais claro que cada lado leva à mesa. Para Brasília, é a prova de uma medida dirigida a setores específicos; para Washington, a prova de que a medida funciona.
Nove meses de conversa que renderam um grupo de trabalho
O histórico da negociação é magro. Lula e Donald Trump se falaram por telefone em 21 de agosto, e Trump pediu que seus auxiliares se reunissem rapidamente. As conversas foram retomadas por videoconferência em 31 de agosto, com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial Jamieson Greer; Rosa disse a jornalistas depois que a reunião "não avançou em nenhum tema negocial". Em 30 de setembro, Rosa e Vieira encontraram Greer em Milwaukee e acertaram a criação de um grupo de trabalho. Greer afirmou que Washington tinha várias medidas já redigidas, sustentou que a eleição limitava a margem brasileira e recusou o pedido do Brasil de suspender as tarifas durante as conversas.
Em 8 de outubro, Rosa disse que o Brasil esperava uma proposta escrita americana em novembro e que a eleição ficaria fora da mesa. Essa proposta chega agora a um governo reeleito, cujo próximo mandato começa na posse de 5 de janeiro de 2027 — data em que passaria a ser executado qualquer acordo fechado no intervalo.
Com informações da Folha de S.Paulo, do Office of the United States Trade Representative, da Reuters e do Rio Times.




