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Argélia manda tropas ao Níger na primeira operação militar fora de suas fronteiras desde 1973

Tebboune assinou o envio na segunda-feira para proteger instalações de energia; no Senado, 148 dos 174 parlamentares votaram a favor em sessão de emergência no domingo

Por Redação RecortNews
O presidente da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, em encontro oficial na Eslovênia, em maio de 2024.
O presidente da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, em encontro oficial na Eslovênia, em maio de 2024.Foto: Bor Slana/Vlada Republike Slovenije, via Wikimedia Commons, domínio público

A Presidência da Argélia anunciou na segunda-feira (26) que o presidente Abdelmadjid Tebboune decidiu enviar unidades do Exército Nacional Popular (ANP) à República do Níger. Segundo o comunicado oficial, divulgado pela agência estatal APS, a finalidade é "assegurar a proteção dos interesses energéticos e econômicos comuns argelino-nigerinos".

Se for executada, será a primeira operação militar argelina fora das próprias fronteiras desde 1973, quando o país mandou soldados em apoio ao Egito na guerra árabe-israelense.

O que o Parlamento aprovou

As duas Casas do Parlamento argelino autorizaram o envio em sessão de emergência no domingo (25). Uma reforma constitucional de 2020 passou a exigir o voto de pelo menos dois terços dos parlamentares de cada Casa para o emprego de tropas no exterior — até então, a Argélia não tinha mecanismo previsto para isso.

No Conselho da Nação, a Casa alta, 148 dos 174 senadores votaram a favor, de acordo com um senador ouvido pela agência AFP em condição de anonimato; a Al Jazeera descreveu a aprovação como unânime. A Assembleia Popular Nacional, a Casa baixa, votou no mesmo dia.

Nem o comunicado da Presidência nem o Parlamento informaram quantos soldados serão enviados ou quando a operação começa.

Petróleo, gás e um gasoduto

O senador Belkacem Boulghiti disse que os militares vão guardar infraestrutura econômica, em especial instalações petrolíferas argelinas em território nigerino, e que o país "não está mandando nossos soldados para guerrear no Níger", segundo a Al Jazeera. Ele apresentou a missão como resposta à mudança das condições de segurança no Sahel.

A estatal argelina Sonatrach negocia com o Níger o Gasoduto Trans-Saariano, projeto que levaria gás natural da Nigéria, atravessando o território nigerino, até a Argélia, de onde seria exportado para a Europa. É o ativo que dá a dimensão econômica da decisão: a infraestrutura que a Argélia quer proteger fica do outro lado da fronteira.

Uma guinada na doutrina argelina

A decisão rompe com uma longa recusa argelina a intervir militarmente além de suas fronteiras, princípio que o país sustentou ao longo de décadas, inclusive durante as crises no Mali e na Líbia.

Houve sinais recentes dessa mudança. Em agosto, Argel enviou caças e aeronaves de apoio ao Níger depois do que autoridades argelinas descreveram como tentativa de desestabilizar o governo militar nigerino; o Ministério da Defesa argelino falou em quatro aviões. Em 3 de outubro, em pronunciamento na televisão, Tebboune afirmou que a Argélia protegeria o Níger "custe o que custar".

A aproximação entre os dois governos vem depois de um período ruim. Em abril de 2025, forças argelinas derrubaram um drone do Mali perto da fronteira, e Níger, Mali e Burkina Faso — os três governados por militares que chegaram ao poder em golpes e reunidos na Aliança dos Estados do Sahel — chamaram de volta seus embaixadores em Argel. Na semana passada, o ministro da Defesa do Níger, general Salifou Modi, esteve em Argel, reuniu-se com Tebboune e com o chefe do Estado-Maior argelino, general Said Chengriha, e os dois países assinaram um protocolo de cooperação militar cujos termos não foram divulgados.

O Níger é governado pelo general Abdourahamane Tiani desde o golpe de 2023, condenado pela Argélia na época. O país, como o Mali e Burkina Faso, enfrenta há anos ataques de grupos armados ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico.

Com informações da agência estatal argelina APS, da Al Jazeera e do Arab News.