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Reino Unido sanciona 15 comandantes sudaneses um ano depois da queda de El Fasher e anuncia £ 15 milhões em ajuda

Entre os alvos estão um coronel das RSF ligado ao cerco da cidade e um general que depois desertou para o Exército; £ 5 milhões são destinados a sobreviventes de violência sexual

Por Redação RecortNews
Mulheres deslocadas internamente vendem carvão em um mercado de El Fasher, capital do Darfur do Norte, em fevereiro de 2015, oito anos antes da guerra que destruiu a cidade.
Mulheres deslocadas internamente vendem carvão em um mercado de El Fasher, capital do Darfur do Norte, em fevereiro de 2015, oito anos antes da guerra que destruiu a cidade.Foto: RomanDeckert/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O governo do Reino Unido anunciou nesta segunda-feira (26) sanções contra 15 comandantes das duas forças que travam a guerra no Sudão — as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) e as Forças Armadas sudanesas (SAF) —, acusados de envolvimento em estupro, tortura e ataques contra civis. As medidas incluem proibição de entrada no país e congelamento de bens, e saem um ano depois da queda de El Fasher, capital do Darfur do Norte, tomada pelas RSF em outubro de 2025 após um cerco de 18 meses.

Junto com as designações, Londres anunciou £ 15 milhões em recursos: £ 5 milhões destinados a sobreviventes de violência sexual ligada ao conflito e £ 10 milhões para operações humanitárias, incluindo água, saneamento e serviços de saúde em Tawila e El Obeid — duas das cidades que receberam quem conseguiu sair de El Fasher.

Quem está na lista

A lista reúne nomes dos dois lados da guerra, o que o governo britânico apresenta como um recado de que a responsabilização não escolhe facção. Entre os designados divulgados estão:

  • Hussein Abu Jalak, coronel das RSF associado a atrocidades durante o cerco de El Fasher;
  • Al-Nour Ahmed Adam, conhecido como Al-Qubba, ex-major-general das RSF que teve papel de destaque no cerco e no ataque à cidade e que depois desertou para o Exército sudanês;
  • Ahmed Haj Barrir Ahmed, brigadeiro-general do Exército, ligado a massacres em Wad Madani, no estado de Gezira;
  • Abu Zaid Talha Al-Misbah, comandante do Batalhão Al-Baraa bin Malik, milícia islamista que lutou ao lado do Exército em Gezira.

O caso de Al-Qubba é o que melhor ilustra o problema que as sanções tentam enfrentar: um comandante acusado de atuar na tomada de El Fasher pelas RSF passou, desde então, para o lado contrário. A troca de lado não apaga a conduta anterior, e é exatamente essa a aposta do instrumento — a sanção acompanha a pessoa, não o uniforme.

"Estupro e fome ainda são usados como arma"

O chanceler britânico, Ed Miliband, disse que "a guerra no Sudão criou uma catástrofe humanitária" e que "estupro e fome ainda estão sendo usados como arma contra o povo do Sudão". Segundo ele, os responsáveis "precisam ser responsabilizados", e o apoio externo às partes em conflito deve cessar. Miliband observou ainda que o acesso à ajuda e à comida está, na prática, nas mãos das RSF e das SAF.

O anúncio vem acompanhado de um levantamento do Centre for Information Resilience (CIR), financiado pelo Reino Unido, que concluiu que os dois lados recorreram de forma sistemática à fome como método de guerra e à violência sexual contra civis. O centro identificou cinco focos de violência sexual relacionada ao conflito e apontou 25 comandantes sobre os quais, em sua avaliação, há motivos razoáveis para considerar responsabilidade por abusos nesses locais — dez a mais do que o número de sancionados agora.

El Fasher, um ano depois

Relatório da Anistia Internacional divulgado em 23 de outubro, baseado em entrevistas com 25 civis feitas em agosto e setembro, descreve o que restou da cidade. Organizações humanitárias estimam que menos de 70 mil pessoas permanecem em El Fasher, que antes da guerra tinha mais de um milhão de habitantes.

Dos 19 moradores entrevistados, 17 foram detidos pelas RSF, a maioria durante a tomada da cidade, e todos ficaram meses presos, libertados apenas após pagamento de resgate ou fuga. Os relatos descrevem espancamentos e mortes ilegais em prisões como Shala, uso de escolas como centros de detenção para mulheres, crianças e idosos, e trabalho forçado — inclusive na coleta de corpos e escombros. Pessoas das etnias zaghawa e masalit, segundo os entrevistados, eram alvo preferencial.

"Um véu generalizado de medo pesa sobre El Fasher hoje", disse Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional, para quem a alegação das RSF de que a cidade é segura para o retorno "não poderia estar mais distante da verdade". A organização pede cessar-fogo imediato, uma força internacional de proteção e a ampliação do embargo de armas da ONU para todo o Sudão.

Avaliações oficiais de segurança alimentar consideram altamente provável que o Darfur do Norte, El Fasher incluída, entre nos próximos meses no nível 5 da escala IPC — a classificação de fome, a mais grave da escala.

No mesmo dia das sanções, a estatal de eletricidade do Sudão informou que ataques de drones atribuídos às RSF atingiram usinas em quatro estados do sudeste do país. As RSF não responderam a pedidos de comentário.

Com informações de The National, Radio Tamazuj, Anistia Internacional e Just Security.