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Ataque de drone ao mercado de Amiet, em Abyei, mata ao menos 153, e a ONU fala de mais de 250 mortos em poucos dias

Os drones atingiram um depósito de combustível dentro do mercado na segunda-feira; há mais de 20 feridos, cerca de 8 mil desalojados e a força de paz da ONU ainda apura o número de vítimas

Por Redação RecortNews
Vista da cidade de Abyei, sede da região disputada entre o Sudão e o Sudão do Sul, em 2009.
Vista da cidade de Abyei, sede da região disputada entre o Sudão e o Sudão do Sul, em 2009.Foto: Sudan Envoy/Wikimedia Commons, CC BY 2.0

O mercado de Amiet, ao norte da cidade de Abyei, foi atingido por drones na segunda-feira, 19 de outubro. Dois dias depois, a administração local contava ao menos 153 mortos — e avisava que o número deve crescer, porque o fogo no depósito de combustível atingido continuava queimando e parte dos corpos não pode ser identificada.

"O fogo ainda está queimando, então o processo de recolhimento dos mortos continua", disse Yohana Akol Ngor, ministro interino da Informação da administração de Abyei, que fala também de cerca de 8 mil desalojados.

O que foi atingido

Três fontes diplomáticas, um trabalhador humanitário e um especialista em conflitos disseram à Reuters que o alvo foi um depósito de combustível dentro do mercado, usado no passado pelas Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) para abastecer seus combatentes.

Uma testemunha ouvida pela agência contou ter escutado cinco explosões grandes antes de o depósito pegar fogo, e ter visto 28 corpos queimados em um único ponto. Disse ainda que não havia combatentes fardados no mercado.

Médicos Sem Fronteiras atendia mais de 20 feridos no hospital Ameth Bek, parte deles com queimaduras graves.

Quem é acusado, e o que diz o Sudão

O Sudão do Sul atribuiu o ataque ao Exército sudanês. Seu Ministério das Relações Exteriores afirmou que drones atingiram vários pontos do mercado, convocou o embaixador do Sudão e pediu ao país vizinho que deixe de pôr civis em risco.

As Forças Armadas do Sudão não responderam de imediato aos pedidos de comentário. Um oficial sudanês graduado disse à Associated Press, sem se identificar, que os militares atingiram caminhões-tanque vindos do Sudão do Sul com destino às RSF, e que os mortos eram integrantes do grupo e contrabandistas de combustível. Segundo ele, o Exército não "tem como alvo civis". As RSF também não comentaram.

A ONU conta mais de 250 mortos em poucos dias

Stephane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, condenou os ataques de drone perto do mercado de Amiet e de Todach e disse que dezenas de civis, entre eles mulheres e crianças, foram mortos — sem apontar o autor.

"Seguimos alarmados com os incessantes ataques de drone por todo o Sudão", afirmou, acrescentando que os bombardeios estão tendo um efeito devastador sobre as comunidades. A ONU calcula que os ataques dos últimos dias já somam mais de 250 mortos, diz que muita gente continua desaparecida e informa que a Força Interina de Segurança das Nações Unidas para Abyei (Unisfa) ainda apura o número de vítimas.

Por que Abyei

Abyei é reivindicada pelo Sudão e pelo Sudão do Sul desde a independência do segundo, em 2011, e é administrada em conjunto pelos dois países, com a Unisfa no território. É uma região rica em petróleo e faz fronteira com Kordofan, no Sudão, um dos principais centros dos combates.

O Exército sudanês e as RSF estão em guerra desde abril de 2023, num conflito que produziu uma das maiores crises humanitárias do mundo. O Sudão do Sul afirma não ter tomado partido, mas diplomatas dizem que Abyei se tornou uma rota importante de abastecimento de combustível para as RSF.

É esse detalhe logístico que explica por que um mercado virou alvo: num conflito em que as duas partes dependem de drones e de combustível trazido de longe, o ponto onde o combustível é estocado passa a ter valor militar — e fica cercado de gente que não tem nada a ver com a guerra.

Com informações de Al Jazeera, ABC News (Austrália), Reuters e Associated Press.