A primeira sessão da bolsa brasileira depois do segundo turno terminou com a maior queda do Ibovespa desde março de 2020. O índice fechou esta segunda-feira (26) aos 176.608,23 pontos, recuo de 13,88% sobre a sexta-feira (23), quando havia encerrado aos 205.082,56 pontos com alta de 0,47%. É o menor nível desde 31 de agosto.
A queda começou antes do pregão. Os contratos futuros do índice, que são negociados antes da abertura do mercado à vista, derreteram na pré-abertura, e a B3 acionou o circuit breaker já no leilão de abertura, suspendendo os negócios por 30 minutos. A retomada veio às 10h40. Foi o primeiro acionamento do mecanismo em mais de seis anos — o último havia sido em março de 2020, no início da pandemia de covid-19, quando a bolsa parou seis vezes em um mês só.
Como funciona a parada
A regra da B3 prevê interrupção de 30 minutos quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior, e uma segunda parada, de uma hora, aos 15%. Em queda de 20%, a bolsa define o tempo. Nesta segunda-feira, segundo explicação da própria B3 à revista Exame, o preço teórico do índice na pré-abertura já apontava recuo superior a 20%, e por isso a primeira parada foi antecipada.
A reabertura não conteve a venda. O índice chegou a 169.516,43 pontos na mínima do dia, queda de 17,34% — e passou boa parte da tarde entre 14% e 15% de baixa, antes do fechamento.
Dólar a R$ 5,60 na máxima
No câmbio, o dólar à vista foi a R$ 5,6048 na máxima, mais de 12% acima do fechamento de sexta-feira, e terminou o dia a R$ 5,4029, alta de 8,2%. Na sexta, a moeda havia encerrado a R$ 4,99, em queda de 0,90%.
Na curva de juros, as taxas dos contratos de DI subiram mais de 200 pontos-base nos vencimentos médios e longos. O movimento é de precificação de mercado: não altera a Selic, que é definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, mas sinaliza que prêmio de risco maior está sendo exigido para emprestar ao país no médio e no longo prazo.
O que o mercado diz ter reprecificado
Analistas ouvidos pela imprensa financeira ligaram a liquidação à reavaliação do cenário fiscal e de política econômica para o novo mandato. À Money Times, a estrategista de ações da Nomad, Rebecca Nossig, descreveu a sessão como um "movimento generalizado de liquidação na bolsa", atribuindo-o à cautela dos investidores com a política econômica à frente. O head da mesa de renda fixa da Convexa Investimentos, Rafael Dadoorian, apontou na mesma direção, citando a trajetória da dívida pública.
Parte do mercado estava posicionada para um resultado diferente no domingo: segundo a Reuters, investidores haviam montado posições apostando na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), e o resultado obrigou a desmontagem dessas apostas em um único pregão. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos.
O Focus da manhã ainda não via o choque
O Relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta mesma segunda-feira não captou nada disso: as projeções foram coletadas até sexta-feira (23), antes da votação. Naquele retrato, a mediana do mercado para o IPCA de 2026 havia caído de 5,22% para 5,19%, o PIB de 1,83% para 1,80%, e o dólar no fim do ano de R$ 5,13 para R$ 5,05 — cerca de 55 centavos abaixo do que a moeda chegou a valer poucas horas depois. A Selic projetada para o fim de 2026 ficou em 13,25%.
A leitura do mercado sobre o novo mandato, portanto, só deve aparecer nos números do Focus da semana que vem.
Com informações de Money Times, Metrópoles, Banco Central, B3, Folha de S.Paulo e Reuters.



