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Economia

O risco-país da Argentina sobe a 765 pontos-base e o Mercado Libre fecha em queda de 7,81% por efeito da reeleição de Lula

O índice do J.P. Morgan ganhou 58 pontos em relação a sexta-feira e chegou ao nível mais alto desde outubro de 2025; o Merval abriu em queda de 5,5% e o contado con liquidación avançou 2,1%, a 1.683 ARS.

Por Redação RecortNews
A fachada do edifício da Bolsa de Comercio de Buenos Aires na rua Leandro N. Alem, em 2007.
A fachada do edifício da Bolsa de Comercio de Buenos Aires na rua Leandro N. Alem, em 2007.Foto: Antonio García from Madrid, Spain/Wikimedia Commons, CC BY 2.0

O risco-país da Argentina subiu 8,2% na segunda-feira, 26 de outubro, e chegou a 765 pontos-base, 58 pontos acima do fechamento de sexta-feira, quando estava em 707. É o nível mais alto do índice calculado pelo J.P. Morgan desde outubro de 2025, antes das eleições legislativas argentinas. No mês, o indicador acumula alta de 26% e, no ano, de 34%.

O movimento veio depois do segundo turno presidencial no Brasil, disputado no domingo, em que Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,8% dos votos válidos contra 48,2% de Flávio Bolsonaro. Os mercados precificavam outro resultado: segundo o jornal La Nación, os preços atribuíam cerca de 75% de probabilidade a uma vitória de Bolsonaro. O J.P. Morgan atribuiu parte do desfecho à maior participação no segundo turno.

As ações argentinas em Nova York

O Mercado Libre chegou a cair 15% ao longo do dia e terminou com queda de 7,81%. Entre os bancos, o Grupo Supervielle cedeu 9,43%, o BBVA Argentina 7,97%, o Grupo Financiero Galicia 6,75% e o Banco Macro 6,30%. A Telecom Argentina caiu 7,44%; a Cresud, 5,76%; a Edenor, 5,55%; a TGS, 4,78%; a Central Puerto, 4,46%; a Pampa Energía, 3,62%; a Loma Negra, 3,58%; e a YPF, 2,84%.

Em Buenos Aires, o índice MSCI Merval abriu em queda de 5,5%, com baixas em todos os papéis, segundo a agência Noticias Argentinas. Os títulos em dólares também recuaram: o Bonar 2038 perdeu 2,3%; o Bonar 2041, 2,2%; e o Bonar 2029, 1,8%.

O dólar e o real

A taxa de câmbio de referência no varejo do Banco Nación subiu 10 pesos, de 1.550 para 1.560 ARS, alta de 0,6%. Em outubro acumula 1,3% e no ano 5,4%, muito abaixo de uma inflação acumulada de 23,6%. O contado con liquidación (cotação do dólar obtida pela compra e venda de ativos no exterior) avançou 2,1%, a 1.683 ARS, e ampliou o ágio cambial para mais de 8%.

O real se desvalorizou mais de 10% frente ao dólar e passou de 5,60 por dólar. A corretora Portfolio Personal Inversiones (PPI) apontou que essa desvalorização é um vento contrário para o peso argentino, e destacou que até agora não houve vendas de instrumentos atrelados ao dólar nem intervenção nos futuros de outubro, algo que considerou um sinal positivo.

Três canais de contágio

A corretora Cohen identificou três vias pelas quais o resultado brasileiro chega aos ativos argentinos: menor demanda do Brasil por exportações industriais argentinas, em especial do setor automotivo; o contágio financeiro direto; e a reversão do prêmio de risco regional, que havia comprimido os spreads argentinos depois do primeiro turno. Segundo a Cohen, as empresas com exposição ao Brasil e os bancos — os papéis que lideraram a recuperação de sexta-feira — são os mais sensíveis à correção.

Esse percurso anterior havia sido significativo: após a vantagem de Bolsonaro no primeiro turno de 5 de outubro, o Mercado Libre subiu 9,6%, o Merval ganhou 3,7% e o risco-país caiu 56 pontos, abaixo de 600. A consultoria Outlier já previa por isso um impacto local importante, porque a valorização dos ativos argentinos estava ligada à do real e à expectativa de avanços no Mercosul.

Eric Ritondale, da Puente, estimou que as condições internacionais explicam cerca de dois terços do aumento do risco-país dos últimos dois meses, e que o resultado de domingo prolonga essa pressão externa. É uma nuance relevante para ler o salto de 58 pontos: boa parte da deterioração já vinha de fora antes do segundo turno brasileiro.

O que os investidores olham no Brasil

"Os investidores castigam Lula porque ele não cumpriu no fiscal", escreveu a PPI, que citou uma projeção do Fundo Monetário Internacional segundo a qual o déficit total do Brasil chegará a 7,7% do PIB, com dívida bruta próxima de 97% do PIB. Em São Paulo, a Bovespa interrompeu as operações por 30 minutos depois de cair mais de 10%, e o ETF EWZ, que replica ações brasileiras, recuou cerca de 27% em dólares no pré-mercado, segundo a IEB. O risco-país do Brasil, por sua vez, subiu apenas 8 pontos e fechou abaixo de 200.

A incerteza argentina de 2027 também aparece nos preços: a taxa forward entre os títulos AO27 e AO28 ficou perto de 21%, o que, segundo a IEB, reflete em parte as dúvidas sobre a continuidade do programa econômico.

Com informações de Ámbito, La Nación e Noticias Argentinas.