O líder norte-coreano Kim Jong-un atravessou a pé, no sábado (24), a Nova Ponte do Rio Yalu e entrou em Dandong, na província chinesa de Liaoning. Foi sua primeira viagem à China em um ano, e a travessia que ele cruzou — ligando a cidade chinesa a Sinuiju, no noroeste da Coreia do Norte — ficou doze anos construída sem abrir ao tráfego.
A visita foi confirmada pelo Ministério da Unificação da Coreia do Sul e pela agência estatal chinesa Xinhua, e imagens da emissora CCTV mostraram Kim caminhando sobre o vão em direção ao lado norte-coreano.
Uma ponte pronta desde 2014
A obra começou em outubro de 2011, foi paga pela China e ficou concluída do lado chinês em 2014. São cerca de 3 quilômetros de estrutura estaiada, a um custo estimado em 2,2 bilhões de yuans, segundo a imprensa sul-coreana. A ponte só foi aberta ao tráfego em 15 de outubro de 2026 — doze anos depois de terminada.
O atraso não foi diplomático: faltavam, do lado norte-coreano, as estradas de ligação e as instalações de alfândega e imigração sem as quais a ponte desembocava literalmente num descampado. Até agora, praticamente todo o comércio terrestre entre os dois países passava pela Ponte da Amizade sino-coreana, inaugurada em 1943, com uma única linha férrea, uma pista reversível e limite de 20 toneladas por caminhão.
É esse gargalo que a nova travessia desfaz. Para Lu Chao, da Academia de Ciências Sociais de Liaoning, a obra resolve "um grande gargalo na logística do comércio China-Coreia do Norte" — e a China responde pela maior parte do comércio exterior declarado de Pyongyang.
O que Kim fez em Dandong
Kim foi acompanhado por Wang Huning, membro do Comitê Permanente do Partido Comunista Chinês e quarto nome na hierarquia do partido, que transmitiu saudações do presidente Xi Jinping. Wang afirmou que a China está pronta para aproveitar a abertura da ponte e ampliar o intercâmbio de pessoas e a cooperação econômica e comercial.
O líder norte-coreano visitou um memorial aos soldados do Exército de Voluntários do Povo Chinês, que lutaram ao lado de Pyongyang na Guerra da Coreia (1950–1953), e percorreu uma fábrica de automóveis na cidade. Disse que a Coreia do Norte vai "levar adiante com firmeza a invencível amizade entre a RPDC e a China, forjada ao preço de sangue", e que a ponte "cumprirá, sem dúvida e corretamente, sua missão histórica de ligar os dois países".
Dois eixos ao mesmo tempo
O encontro é o sinal mais recente de reaproximação depois de anos de fronteira fechada pela pandemia. Kim esteve em Pequim em setembro de 2025, ao lado de Xi e do presidente russo Vladimir Putin, na parada militar dos 80 anos do fim da Segunda Guerra; Xi fez visita de Estado à Coreia do Norte em junho de 2026. São dois encontros de cúpula em treze meses.
A leitura de analistas é menos linear do que a cerimônia sugere. Desde 2022, Pyongyang enviou milhares de soldados e armamento convencional à Rússia, e parte dos especialistas vê aí um grau de autonomia novo diante de Pequim — a ponte seria, nessa chave, menos um gesto de subordinação do que a abertura de um segundo canal. Christopher Green, da Universidade de Leiden, avalia que a travessia dá o aval pessoal de Kim ao comércio bilateral.
No tabuleiro americano, autoridades dos Estados Unidos e da Coreia do Sul já trabalham com a hipótese de que não haverá encontro entre Donald Trump e Kim ainda neste ano. Trump é esperado na cúpula da Apec, em Shenzhen, no mês que vem.
Com informações de ABC News, CBS News, SBS e Morning Star.




