A Organização das Nações Unidas deixou de tratar a meta de 1,5 °C como algo a ser preservado e passou a tratá-la como algo a ser recuperado. É a mudança de tom que estrutura o Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026, publicado nesta quarta-feira (21) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) com o subtítulo O ponto de retorno: a ultrapassagem do limite do Acordo de Paris aparece ali como cenário dado, e o que o documento calcula é o tamanho e a duração dessa ultrapassagem.
No cenário de menor ultrapassagem possível, o pico do aquecimento ficaria entre 1,7 °C e 1,8 °C por volta de meados do século, com retorno a 1,5 °C ou menos até 2100 — e com cerca de 50% de chance de isso acontecer. Não é a trajetória atual.
Três cenários, nenhum deles em 1,5 °C
O relatório projeta o século a partir do que os países já fazem e do que já prometeram:
- políticas atuais mantidas: aquecimento de até 2,8 °C, ainda em alta depois de 2100;
- todas as metas nacionais (NDCs) cumpridas, com esforço semelhante adiante: 2,6 °C;
- metas nacionais mais os compromissos de neutralidade de carbono: 2,1 °C.
O Pnuma acrescenta uma régua que ajuda a dimensionar o atraso: cada cinco anos de emissões de CO₂ no nível de hoje acrescenta cerca de 0,1 °C ao pico do aquecimento.
A conta dos cortes
Para o cenário de menor ultrapassagem, o relatório estima que as emissões globais de gases de efeito estufa precisariam cair, em relação a 2025:
| Prazo | Corte necessário |
|---|---|
| 2030 | 18% |
| 2035 | 45% |
| 2040 | 69% |
Entre 2025 e 2035, isso equivale a uma queda média de 5,7% por ano — ritmo acima dos cerca de 5% anuais das trajetórias do sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). A observação importa porque o número não é apenas ambicioso em si: ele é mais exigente do que a referência científica construída antes desta década de adiamentos.
O que as metas nacionais entregam
A distância entre o necessário e o prometido é o cálculo central do documento. Cumpridas integralmente, as NDCs apresentadas reduziriam as emissões em apenas 5% a 8% até 2030 e 11% a 15% até 2035, na comparação com 2025 — menos de um terço do que o cenário de menor ultrapassagem pede para 2035.
As novas metas entregues no último ano, segundo o Pnuma, fizeram diferença desprezível nas projeções. E o quadro geral piorou em relação ao relatório do ano passado por dois motivos: a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e a revisão das estimativas de emissões históricas.
320 bilhões de toneladas para remover
O retorno a 1,5 °C até o fim do século, no cenário desenhado pelo relatório, não se faz só com corte de emissões. Ele depende de remover e armazenar permanentemente cerca de 320 gigatoneladas de CO₂ ao longo deste século — o equivalente a aproximadamente oito anos das emissões globais de CO₂ de 2024. O próprio Pnuma registra que a viabilidade dessa escala de remoção é incerta.
O que teria de mudar na matriz
O documento também atualiza, para 2035 e 2040, as metas setoriais saídas do primeiro Balanço Global. Em relação a 2025, seriam necessários:
- renováveis: ao menos triplicar a capacidade de geração elétrica até 2035 e multiplicá-la por 4,5 até 2040;
- eficiência: reduzir em pelo menos 30% até 2035, e 40% até 2040, a intensidade energética do PIB;
- carvão, petróleo e gás: cortar a participação de cada um na oferta total de energia em 55%, 15% e 5% até 2035, e em 75%, 30% e 35% até 2040;
- carvão na geração elétrica: queda de no mínimo 75% até 2035 e eliminação global até 2040;
- metano: 25% abaixo do nível de 2025 até 2035, e 40% abaixo até 2040.
O que a política pública já conseguiu
Numa seção menos pessimista, o relatório revisa mais de 220 avaliações de políticas públicas já aplicadas. Medidas voltadas ao setor elétrico reduziram emissões em média 9%; instrumentos econômicos, como taxação de carbono e mercados de permissões, alcançaram cortes de 5% a 13%. São ordens de grandeza modestas quando comparadas aos 18% pedidos para 2030, mas são resultados medidos, não projetados.
A frase que resume a mudança
"Ultrapassar não é render-se. Ainda podemos mantê-la a menor e a mais curta possível", disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, sobre a ultrapassagem do limite. A diretora-executiva do Pnuma, Inger Andersen, formulou o custo do adiamento: "Cada fração adicional de grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5 °C aumentam os impactos e os riscos climáticos."
O relatório sai poucas semanas antes da COP31, marcada para novembro em Antália, na Turquia, onde começa o segundo Balanço Global — o mecanismo do Acordo de Paris que confere, de cinco em cinco anos, a distância entre o que os países prometeram e o que a física registra.
Com informações do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da ONU News.




