Os presidentes do Chile, José Antonio Kast, e da Bolívia, Rodrigo Paz, assinaram nesta sexta-feira, 16 de outubro de 2026, em La Paz, uma declaração conjunta em que os dois governos se comprometem a encaminhar a retomada de relações diplomáticas plenas, suspensas há décadas. Foi a primeira visita de Estado de um presidente chileno à Bolívia em 71 anos: a anterior foi feita por Carlos Ibáñez del Campo, em 1955.
Chile e Bolívia não trocam embaixadores e se relacionam por meio de representações consulares. Segundo o site chileno BioBioChile, os dois presidentes decidiram reativar o Mecanismo de Consultas Políticas, o canal diplomático bilateral pelo qual serão tratadas as diferenças históricas e pelo qual o avanço rumo à normalização será feito por etapas. Não foi fixada uma data para a volta dos embaixadores.
"As diferenças não podem ser desculpa para ficarmos paralisados", disse Kast, de acordo com o mesmo veículo. O presidente chileno convidou Paz a fazer uma visita de Estado ao Chile em 2027 — convite aceito pelo colega boliviano — e afirmou que "não se passarão sete décadas até o próximo encontro de presidentes".
O que foi assinado
Os chanceleres Héctor Huanca, da Bolívia, e Francisco Pérez Mackenna, do Chile, assinaram os termos de referência para modernizar o Acordo de Complementação Econômica nº 22 (ACE-22), o marco que organiza o comércio bilateral. A negociação será feita em duas fases: a primeira, sobre preferências tarifárias, regras de origem e facilitação do comércio; a segunda, eventualmente, sobre serviços, comércio eletrônico, compras públicas e cláusulas trabalhistas e ambientais.
A isso se somaram um memorando de entendimento em mineração — com foco em geologia, exploração, troca de dados geocientíficos, processamento e minerais críticos —, um memorando para um corredor bioceânico de fibra óptica que ligaria a Bolívia aos cabos submarinos do Pacífico pela região chilena de Arica y Parinacota, e uma declaração conjunta de integração energética que prevê avaliar uma interconexão elétrica com cronograma de etapas e prazos.
A emissora boliviana Red Uno informou que a declaração presidencial está organizada em oito eixos estratégicos e inclui a reativação de mecanismos bilaterais parados: consultas políticas, a comissão de cultura e educação, a comissão de drogas, o acompanhamento do ATIT (acordo de transporte internacional terrestre) e o grupo de trabalho sobre livre trânsito. O texto também menciona apoio da CAF, o banco de desenvolvimento da América Latina, para infraestrutura e conectividade produtiva, e uma mesa binacional para a gestão de recursos hídricos transfronteiriços.
Energia: o oleoduto que mudaria de sentido
Entre os projetos citados está a reversão do oleoduto Sica Sica–Arica, que hoje leva petróleo boliviano ao Pacífico e que, no sentido inverso, permitiria abastecer a Bolívia de combustível por via terrestre a partir do porto chileno. Kast afirmou que o projeto avança, embora não tenha sido anunciado contrato assinado nem valores de investimento.
Na área de segurança, os governos decidiram aprofundar a coordenação policial e a troca de inteligência contra o crime organizado transnacional — endossando os resultados da primeira reunião de altos comandos policiais — e trabalhar por uma migração ordenada e segura.
A reivindicação marítima ficou fora
O pleito boliviano por uma saída soberana ao oceano Pacífico, perdida na Guerra do Pacífico no século XIX, não entrou nos documentos assinados. Paz sustentou que a reivindicação marítima segue sendo um objetivo permanente previsto na Constituição boliviana e que isso não impede o diálogo. Kast, por sua vez, reconheceu as diferenças e disse que os dois Estados podem avançar em iniciativas conjuntas sem abrir mão de suas posições.
Ao defender a proximidade entre as duas sociedades, Paz citou dois números: cerca de 500 mil bolivianos vivem de alguma forma no Chile e, segundo ele, trabalhadores de origem boliviana colhem perto de 80% da produção chilena de cerejas.
Nenhum dos instrumentos anunciados trouxe valores comprometidos nem prazos vinculantes, e o texto integral da declaração conjunta não havia sido publicado pelos dois governos até o fechamento desta reportagem. O alcance real da aproximação será medido na primeira rodada do ACE-22 e na reativação efetiva dos mecanismos que a declaração lista.
Com informações de Prensa Latina, Red Uno, BioBioChile e The Rio Times.




